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sábado, 5 de junho de 2010

Estrupício!

      Chegava no trabalho e lá estava o estrupício. Fazia de tudo para evitá-lo, mas ele parecia assombração. A armação preta do óculos devia combinar com aqueles cabelos  negros e lambidos, contrastando com a cara branca de defunto.
      Acho que o figurino  era pra ficar mais convicente. Palitó preto e velho, a expressão era de morte! Só podia vender seguro de...bem, não conto as vezes que tentou me vender seu "peixe", o carcará dizia "mas pode ser que a senhora se acidente com seu carro, capote uma ou várias vezes, o seguro prevê isso também! Caso fique aleijada e não morra! O que é ainda pior! A senhora estará coberta! Ou se o seu butijão de gás explodir! Já pensou???... O valor pode duplicar caso cubra o prejuízo do vizinho, é porque há casos em que a explosão atinge a rua toda! As vezes o quarteirão!!! Deve pensar nos acidentes viu? Cadeiras de roda, tetraplegia, perda de membros, essas fatalidades acontecem com mais frequência que imaginamos...Olhe quedas de escadas, escorregões no banheiro, as vezes uma pisada em falso te faz cair  e ter fraturas graves mesmo não estando em locais altos, é que depende da posição da queda! É sim , senhora! Tenho visto muitas desgraças nessa minha profissão. Mas, caso morra sua família receberá cestas básicas, o seguro..blá, bla´, bla´."
     Nossa, logicamente não comprei. Achava aquilo um verdadeiro mal agouro. Em menos de dez minutos , o carcará falava um arsenal de desastres inimagináveis. Era capaz de criar um desastre a partir de um simples lápis  que estava na minha mão, e findaria numa infecção generalizada por conta de uma farpa , era de uma criatividade diabólica. 
     Como todo vendedor, era do tipo insistente, e volta e meia retornava as imediações da minha sala. Cheguei ao ponto de entrar furtivamente para não ser inconvenientemente abordada com exemplos catastróficos de acidentes e mortes inesperadas. 
      Como trabalhava num hospital público não podia impedí-lo de entrar no  local ,  então me contive em não permitir sua entrada na minha sala, nem na área dos meus funcionários. Mesmo sabendo que veria aquele semblante excêntrico na entrada e saída do expediente.
      Incrível como aquela criatura me irritava, mesmo quando estava importunando outras pessoas. Impossível  esquecer suas feições cadavéricas, seus argumentos aterrorizantes, pra não dizer "terroristas'. O intrigante disso, é depois de  quase  cinco anos escapando daquela figura horrenda  e me sentindo aliviada por isso é receber uma ligação de um banco dizendo que eu teria sido 'beneficiada com um seguro-acidente". Minha reação foi imediata, quase de fúria! Quis ser educada, mas não deu! Principalmente quando a moça falou do acidente de escada, foi a gota d'água!
     Um tupor parecia subir em direção a cabeça, não queria acreditar. Seria aquilo uma perseguição? Um aviso? Um castigo? Bem, o fato, é que, quando percebi a mínima insistência, não me controlei. Disse que não me interessava pelo "tal benefício", que não daria lucro a banco com a minha desgraça, que ela fosse  mal agourar a vida de outra, que o desastre era o que eu estava vivendo, uma verdadeira perseguissão por vendedores amaldiçoados de seguros de acidentes! Que o acidente estaria sendo provocado ali!, Pois, estava com muita raiva e teria um troço! Ouvi quando ela me pediu calma, que eu não deveia pensar assim, que a vida era boa, mas que acidentes acontecem...então completei, que se ela estivesse ao meu lado estaria acidentada ou morta!Notei que ela ficou nervosa, então me despedi e me senti satisfeita.



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Estrupício de Valéria Araújo Cavalcante é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
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